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Independência é...

Tradução de belarusso de Volha Yermalayeva e Paterson Franco

 

Independência é quando você chega nesse mundo num hospital, onde não tem as baratas mais esterilizadas do mundo, porém tem seringas e fraldas descartáveis.

 

Independência é quando seu pai vai ao cartório para receber a certidão, provando que você nasceu de verdade, e que chamaram-te em homenagem ao seu avô Ryhor, e a funcionária vai escrever-lhe esse documento com calma e não vai tirar da mesa um “Справочник личных имён народов СССР[1]” e não vai sacudir e explicar histericamente para seu pai que ele pode sem problemas chamar o filho dele de Faizulá ou Mamai, mas não pode chamá-lo de Ryhor, pois esse nome simplesmente não existe nesse mundo (а существует нормальное человеческое имя Григорий[2]).

 

Independência é quando você vai à escola e estuda na sua língua (e a menina Grazhyna[I], de quem você gostava na creche, – na língua dela, o seu vizinho Misha, cujo pai se chama Isaac[II], – na língua dele, o seu outro vizinho, o menino Alyosha, cujos pais se mudaram para cá, porque na cidade deles no rio Volga tinham que pegar fila às 5h da manhã para comprar leite para a criança, – na língua dele). Vão ensinar você na sua língua e seu pai e sua mãe não vão precisar para isso gastar o verão inteiro indo para os apartamentos dos outros pais dos meninos para coletar requerimentos, não que eles não quisessem ensinar suas criancinhas do mesmo jeito que seu pai e sua mãe, mas simplesmente por que nunca tinham pensado nisso, pois cresceram na época do internacionalismo. E esses requerimentos não terão de ser perdidos três vezes pelo diretor e duas vezes pela secretária, e no primeiro de setembro[III], na reunião solene, você não ouvirá que “год от года хорошеет материально-техническая база нашей школы[3]”, e, chegando à sala de aula não saberá que, graças ao cuidado constante do partido e do governo, na língua materna vocês têm só um abecedário e dois livros de matemática para a turma toda.

 

Independência é quando seu grupo de pioneiros[IV] não vai lutar pelo direito de ter nome de Pavlik Morozov ou Aleksandr Myasnikov, porque vocês todos sabem como Pavlik amava seu pai[V] e como Myasnikov amava belarussos[VI].

 

Independência é quando você é estudante e, na aula de matemática avançada, seu coetâneo moreno de Madagascar, que estuda com o dinheiro do país dele, não do seu, vai se inclinar até você e perguntar, o que significa a palavra “probabilidade”, e você explicará para ele em francês.

 

Independência é quando você vai servir o exército não mais longe do que na cidade ou vila vizinha da sua terra, porém nunca vão ordenar você a pintar a grama e limpar o território “daqui até o almoço”. No domingo você poderá visitar seus pais ou sua namorada, porém ninguém vai chamar você de “batateiro[4]” e seu amigo de “bunda negra”[5] por que vocês pensam e falam, em sonho nas suas línguas, e “ótimos alunos” da preparação militar e política não vão, no processo preparatório, fazer a “bicicleta”[6] para você, e nunca vão ordenar que você afie uma pá de sapador para amoitar-se em Baku ou Tbilisi.

 

Independência é quando sua namorada fala que gostaria de passar o fim-de-semana em Viena e você honestamente promete a ela que no sábado vocês vão tomar um café em frente ao palácio de Schönbrunn e sabe que antes da sua viagem ninguém vai interrogá-lo se você era judeu na infância e se você já foi para o exterior, e, se voltou de lá, com que propósito.

 

Independência é quando em Dziady (dia de finados) você vai ao cemitério e sabe que vai acender uma vela, botar flores, mas não vai virar um participante de um experimento de gás neuro-paralítico ou de um novo modelo de cassetete.

 

Independência é quando seu filho levou nota máxima na escola e você o elogia, porque sabe que ele a recebeu não na matéria que ensina sobre a batalha do Lago Peipus e a vitória da coletivização, mas sim, sobre a batalha de Grunwald, que salvou seu povo da morte, e contam a verdade sobre o governo que fuzilou seu avô e matou sua avó de fome.

 

Independência é quando um cantor de Nova Iorque vem te visitar e vocês vão beber umas boas taças de licor de cereja, e depois uns caras gentis à paisana não vão propor a você escrever detalhadamente onde e o que vocês beberam e quem xingaram enquanto isso.

 

Independência é quando você está livre da possibilidade de ouvir como seu presidente ensina compatriotas: “Quem como querer, tal tão habla”, porque seu presidente é um homem alfabetizado e pelo menos uma língua ele fala bem.

 

Independência é quando de repente somem dos programas de televisão e dos jornais as cartas dos incansáveis e dissimulados veteranos e notícias horrorosas sobre nacionalistas e extremistas dos frontes populares, os quais nem dormem de noite, mas incitam a inimizade interétnica entre você, Aliosha e Misha, cujo pai se chamava Isaac, e também Grazhyna, que há muito tempo é sua esposa, para iniciar uma massacre entre vocês e derrubar o trem da perestroika.

 

Independência é quando ninguém assusta você dizendo que seu povo não vai conseguir sobreviver sem o irmão mais velho, porque não tem próprias bauxitas ou diamantes, e você entende que tinha pena à toa dos coitadinhos dos holandeses ou belgas, que não têm nem bauxitas, nem diamantes, nem mesmo um irmão mais velho.

 

Independência é quando os caminhões gigantes com o letreiro “Центровывоз”[7] (você já viu alguma vez tais caminhões com o letreiro “Центроввоз”[8]?) vão não para outros, mas para os nossos mercados.

 

Independência é quando de repente se esclarece, que aqui também tem pessoas inteligentes, e se – Deus livre e guarde! – explodir alguma fábrica ou acontecer alguma outra tragédia, não terão que esperar até chegar uma comissão dos moscovitas espertinhos.

 

Independência é quando você, deitado no leito de morte, sabe que, depois de passar dessa para a melhor, no lugar da igreja onde você foi batizado e se casou, seja ela católica ou ortodoxa, não criarão um dique com um cisne sujo nem construirão uma piscina em homenagem à XXVIII reunião do Partido Comunista nem o cemitério, onde seus ossos descansarão, será destruído e transformado num parque de cultura e lazer cheio de garrafas vazias batizado em homenagem ao companheiro Gorbachev ou ao companheiro Ligachev.

 

Independência é...

 

Independência é quando desde o nascimento até o falecimento você se sente uma pessoa na sua terra.

 

Eu acredito, que um dia será assim.

 

Pois senão, não vale a pena viver.

 

Fevereiro, 1990

 

Пераклалі на партугальскую Вольга Ермалаева і Патэрсан Франко.

 

 

 

[1] (russo) “Guia dos nomes próprios dos povos da URSS”

[2] (russo) “mas o que existe é o nome humano normal Grigoriy”. Ryhor é nome típico belarusso, na versão russa seria Grigoriy.

[3] (russo) “a base material e técnica da nossa escola está ficando ano após ano melhor”

[4] “Batateiro” (bulbash) - nome pejorativo dado aos belarussos pelos russos devido ao estereótipo de que esses comem muita batata.

[5] “Bunda negra” – nome pejorativo dado pelos russos às outras etnias que são mais morenas do que eles.

[6] “Bicicleta” é uma prática surgida no exército soviético, quando botam algodão entre os dedos dos pés de um soldado que está dormindo e ateiam fogo, assim ele começa a mexer as pernas, como se andasse de bicicleta.

[7] (russo) “Exportação central”

[8] (russo) “Importação central”

 

[I] Grazhyna, pelo nome, é, provavelmente, polonesa.

[II] Isaac é um nome tipicamente atribuído a judeus.

[III] 1º de setembro é o primeiro dia do ano letivo nas escolas e universidades na União Soviética e na maioria dos países pós-soviéticos.

[IV] O movimento dos pioneiros era composto de organizações socialistas juvenis da URSS, ingressadas por crianças no início da escola primária e cujos grupos levavam nomes de figuras políticas e históricas famosas.

[V] Pavlik Morozov – um menino soviético tido por mártir pela propaganda e condecorado postumamente como Herói da União Soviética por denunciar o próprio pai como dissidente do regime stalinista e ter sido assassinado (tudo em 1932). O pai de Pavlik era etnicamente belarusso.

[VI] Aleksandr Myasnikov – um dos responsáveis pelo estabelecimento do poder soviético em Belarús. Era contra a língua belarussa e o estado belarusso independente.

 

 

 

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